Religião e Super-heróis

Se a Bíblia prova que Deus existe, quadrinhos provam que super-heróis existem? Confira nossa resposta e ainda conheça a religião dos super-heróis mais populares.

Caridade ATEA

Que direito tem a Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos de criticar a caridade cristã? Conheça as raízes da prática da caridade e a diferença que isso fez para o Ocidente.

Inquisição Espanhola para leigos

Quão brutal foi o tribunal da Inquisição Espanhola? Descubra alguns fatos interessantes sobre um dos episódios mais lembrados da história do cristianismo.

Igreja e Ciência

Uma análise exaustiva da verdadeira história da relação entre o cristianismo e a ciência. Descubra quem foram os cientistas anteriores à revolução científica e como a Igreja fez parte dessa revolução.

Sobre índios, negros e escravos

A Igreja Católica dizia que índios e negros não tinham alma, e por isso permitiu que fossem escravizados? Descubra aqui por que isso não faz o menor sentido.

11 de março de 2014

Nota sobre o blog

Depois de abandonar minhas atividades nesse blog umas três ou quatro vezes, cheguei à conclusão de que não sirvo para ser um blogueiro. Tive muitas dúvidas: se a minha iniciativa era relevante ou necessária, se eu teria forças para levá-la a diante, se eu era capaz de fazer uma real contribuição para as almas generosas que me acompanharam e me motivaram nesse caminho, etc. E eu realmente me dediquei e tentei justificar a existência de todo o conteúdo desse humilde blog. Mas inevitavelmente cheguei à conclusão de que sozinho eu não sou capaz de continuar. E assim o blog foi abandonado mais uma vez.

Mais de um ano após minha última postagem, trago com atraso essa nota de esclarecimento. Porém, dessa vez não renovarei a promessa de que voltarei com as atividades do blog. Todas as vezes que o fiz, não fui capaz de mantê-lo atualizado por mais de dois ou três meses. Isso não é justo! E apesar de minha vontade de continuar, não posso continuar enganando a mim e a meus leitores.

De fato, a essa altura esses leitores já perderam as esperanças de que um dia esse blog voltasse a funcionar, e já nem o visitem mais. Eu não poderia esperar algo diferente. Não pude finalizar um terço do que havia planejado mais de um ano atrás, e sinto uma pequena frustração por isso. Peço perdão a todos por ter prometido e não ter cumprido. Espero que aceitem minhas desculpas!

Tendo esclarecido isso, comunico aos leitores que acaso passem por aqui que não tirarei o blog do ar. É possível que eu ainda faça postagens, mas não frequentemente - talvez com uma lacuna enorme entre uma e outra. Eu sinto que há muitos assuntos sobre os quais eu poderia fazer alguma contribuição, materiais para serem traduzidos, etc., e eu farei essas coisas se achar necessário e se encontrar a energia para fazê-las.

Se você quiser ajudar esse humilde pseudo-blogueiro nessa jornada incerta, reze por esta causa ao bom Deus, para que Ele me dê forças e me proteja de todo o mal! E contem sempre com as minhas orações.


Muito obrigado! Fiquem com Deus!
Vinicius L. Oliveira

21 de novembro de 2012

A crença cotidiana #3

Essa é a terceira e última postagem correspondente ao único capítulo do e-book que esbocei no começo desse ano e acabei deixando de lado. Gostaria apenas de me desculpar por quão extensas foram as postagens, e manifestar minha compreensão caso o leitor considere não valer a pena a leitura.
Lembro-me de um site aparentemente respeitado que pretendia oferecer a prova definitiva da religiosidade de Hitler. As principais evidências eram imagens intrigantes de Hitler saindo de Igrejas, rodeado de sacerdotes, etc. As imagens de fato diziam algo, mas, como qualquer retrato, diziam muito pouco, especialmente para as pessoas que olham para a história como se imagens fossem capazes de cobrir eventos, intenções e probabilidades. Deparei-me com essa mesma "prova" em muitas discussões informais, e cheguei ao ponto de não mais me preocupar com ela por estar convicto de que ela não pode partir de pessoas minimamente interessadas em entender um pouco sobre tudo que o retrato não dizia. É oportuno revelar ao leitor o nome do site em que encontrei aquela prova definitiva: ceticismo.net [1]. 

Isso não é apenas uma coincidência irônica e aleatória: é, antes, a verdadeira expressão do ceticismo contemporâneo; possivelmente o primeiro ceticismo que não é cético. O ceticismo deixou de ser uma ferramenta que rompe a superficialidade das aparências para chegar ao fundo das questões e ao conhecimento pleno do fenômeno. Tornou-se, em vez disso, uma ferramenta que simpatiza com a superficialidade quando isso trás algum tipo de benefício. E o benefício se tornou a medida de praticamente todo o tipo de ceticismo que vemos nos livros antirreligiosos ou em artigos pseudocientíficos. O cético apresenta sua hipótese e a seguir expõe suas evidências até o ponto em que sua hipótese parece bem sustentada. Mas algumas evidências ele esconde, e algumas hipóteses ele sequer considera. Nesse processo, ele pode preferir uma hipótese absurda e ignorar a hipótese mais provável, porque o que é provável não lhe satisfaz, mas o que é absurdo parece ter sido feito sob medida para ele. Bom, neste caso, não só foi feito para ele: foi feito por ele, e ele sabe, como ninguém, o que ele deseja. 

Certa vez uma revista publicou uma pesquisa que revelava que apenas 13% dos brasileiros votariam [2] em ateus. Não discuto a justiça da porcentagem, mas, especialmente no meio político, que é popular pela falta de sinceridade e notável anseio inconsequente por vantagens por parte dos candidatos, é necessário perguntar quem considerará prudente apelar ao povo desprezando ou simplesmente ignorando o que povo brasileiro mais afirma respeitar: Deus. Também não discuto se o povo de fato o respeita. É tão prudente quanto um sujeito que tenta provar que não teme um ataque cardíaco pulando de um precipício sem paraquedas: a frieza não o livrará da morte. Suponho que, no Brasil, um político ateu dificilmente lançaria sua candidatura sendo honesto acerca de seu ateísmo: não porque ele é ateu, mas porque ele é político. Nesse momento gostaria de propor outra questão: Por que, na Alemanha cristã de um século atrás, seria prudente candidatar-se dessa forma? 

Não estou sugerindo que Hitler era um ateu que fingiu ser um homem de Deus, mas acho simplesmente prático admitir que, para alcançar o poder, ele fingiria coisas desse tipo. Não me interessa discutir se Hitler era um ateu, um cristão ou um bêbado: quero apenas ressaltar o fato óbvio de que ele era uma pessoa interessada em conquistar a confiança dos alemães. De fato, ele poderia ser um cristão que viu nesse elo com o povo uma grande oportunidade, mas se quisermos realmente sustentar essa hipótese, precisamos de algo além de moedas nazistas que louvam a Deus, pois também havia as moedas nazistas que louvavam a foice e o martelo: elas são menos populares porque fracassaram, e mesmo esse fato é bastante revelador. Talvez Deus nunca fosse louvado se a primeira tática tivesse sido um sucesso. Se uma pessoa considera todos os absurdos que um político doente pode dizer para ganhar o seu povo, ela poderá arriscar o número de vezes que esse sujeito mente por dia. Então, poderá perguntar algo fundamental: Hitler ousaria mentir para chegar aonde chegou? Teria ele sido capaz de considerar o que o povo queria e o que o povo rejeitaria ao traçar suas metas e esboçar seus discursos? Insisto que não pretendo sugerir coisas irrelevantes sobre Hitler, mas todas essas considerações escapam ao mero jogo de imagens e à tentativa de resumir a história em um álbum de figurinhas. Admito que Hitler deva ter seu direito de falar por si mesmo respeitado, apesar disso não acontecer com Imperadores ortodoxos ou santos do século XVI, mas o que ele disse muda as coisas tanto quanto se tivesse ficado calado. Escreveu, na mesma obra em que disse fazer a vontade do Senhor, que seus discursos públicos eram propagandas sem compromisso com a verdade. Talvez algum jornalista qualquer quisesse dizer, na primeira página do Planeta Diário, o mesmo sobre Lex Luthor, mas a verdade é que a manchete seria desnecessária. 

Antes de encerrar gostaria de fazer algumas considerações complementares. Em nenhum momento sugeri, por exemplo, que devemos acreditar em tudo que nossas avós nos dizem, mas repito que não devemos descartar uma história pelo simples fato de ela ter sido contada por nossas avós, como se elas não merecessem ser levadas a sério. Dentre as pessoas que estão sempre contestando as coisas que os mais velhos dizem, pelo simples fato de terem sido ditas pelos mais velhos, existe aquele jovem irritante que pensa que seus avós são estúpidos pelo simples fato de não terem crescido em um ambiente moderno, como se a época em que se vive fosse garantia de inteligência. Esse jovem é irritante justamente por não perceber que é mais imbecil que os maiores imbecis da Grécia Antiga, e por não perceber que a modernidade dificilmente produzirá um Aristóteles. É necessário enfatizar que, assim como é possível que uma piada contada por uma pessoa comum seja tão engraçada quanto uma piada contada por um humorista, também é possível que uma história contada por nossas avós seja tão verdadeira quanto uma história contada por um cientista. O fato é que a graça da piada não depende necessariamente de quem a conta, e, do mesmo modo, a veracidade de uma história não depende necessariamente de quem a descreve. Uma criança normal ri de uma piada contada pelo próprio pai porque a ela interessa apenas a piada; mas dificilmente o cético de hoje acreditará numa história contada pela própria mãe, pois a ele não interessa a história: a ele interessa, acima de tudo, quem conta a história. Acreditará nos maiores absurdos por estar certo de que alguns absurdos não poderiam ser defendidos por alguns intelectuais que ele admira. Ainda assim, o prazer que a criança sente ao sorrir ele não sente ao duvidar; o que ele supõe ser ceticismo é, na verdade, um conjunto de dúvidas desordenadas que dificilmente levará à ataraxia desejada pelas correntes céticas originais [3]. A dúvida desordenada sobre todas as coisas causa apenas inquietação, pois é um meio que não busca nenhum fim e, consequentemente, não alcança nenhuma satisfação. Nem pode, portanto, ser chamada de meio. 

Também não foi minha intenção fazer uma apologia ao ceticismo, pois para mim já chegou o dia em que ele perdeu seu encanto, apesar de não ter perdido a beleza. Quero apenas ressaltar que há um ceticismo que se pode chamar de sensato, que é digno e deve ser respeitado. Não é esse o ceticismo que se nota nos dias de hoje, e por isso sugeri que não é apropriado chamá-lo de ceticismo, precisamente porque não só ele perdeu a beleza: ele perdeu a essência. Não mais se suspende o julgamento apenas quanto ao que está oculto; em vez disso, suspende-se o julgamento quanto ao que é evidente. Quando Chesterton propôs as duas tríades de objeções comuns ao cristianismo em seu tempo, denunciou exatamente o cético frágil que muito se parece com um homem cuja visão não é boa e cujos óculos estão empoeirados, e ainda assim hesita em limpá-los. "O cético estava muito certo em pautar-se pelos fatos, só que ele não havia analisado os fatos. O cético é crédulo demais; acredita em jornais ou até mesmo em enciclopédias" [4]. Se tentarmos amigavelmente alertar aquele homem que seus óculos estão sujos, mesmo que seja uma sujeira quase imperceptível, corremos o risco de ouvi-lo dizer, com um orgulho típico de nosso tempo: "Eu não vejo nada". Soma-se a pouca poeira à visão um pouco prejudicada, e a visão do homem é sutilmente distorcida. Quando ele olha para o que está próximo de seus olhos, sente que sua visão é perfeita; é quando ele olha para muito longe que a poeira atrapalha. Assim também é o cético de hoje olhando para o cristianismo: ele tem uma boa noção do que ele vê em sua volta, todos os dias; mas quando ele olha para o que está longe, há séculos e séculos de distância, ele não consegue dizer bem o que vê, pois não vê coisa alguma. O fato curioso é que, apesar disso, ele insiste em dizer que está vendo perfeitamente, mesmo quando até aquele homem orgulhoso já teria ouvido o nosso conselho e limpado as suas lentes. 

E agora posso concluir dizendo que nunca podemos esquecer essa condição fundamental: nossas lentes devem estar limpas. Mera disposição para andar não é garantia de que chegaremos ao lugar certo. Como é moda atualmente, um dia cheguei a me convencer de que a verdade era um veneno, e que por isso não merecia ser perseguida. Depois, por mero pessimismo, me convenci de que a verdade não existia. Precisei descobrir uma velha filosofia para entender que ela não só existia, mas era também a cura para a humanidade. E aos poucos eu fui curado. Senti um grande alívio ao descobrir que a verdade era bela, e que só não enxergara antes sua beleza porque minhas lentes estavam embaçadas. Depois de observá-la atentamente e refletir acerca do caminho que me levou até ali, uma grande alegria brotou em meu coração, e um otimismo completamente novo tomou conta de mim. Às vezes, quando um homem toma conhecimento de um segredo, se sente bobo ao considerar todas as coisas que teria feito de outra forma se já o conhecesse antes. Mas talvez seja importante que determinados eventos aconteçam em determinados momentos. Os menores detalhes do dia-a-dia direcionam as maiores curvas da vida. Se tudo isso pareceu uma simples denúncia contra alguém, ele certamente foi uma denúncia contra eu mesmo. Falei da ingenuidade das pessoas e da descoberta da cura, e todo esse tempo estive pensando no quanto fui ingênuo e de quantas vacinas eu precisava; e de quantas ainda preciso. Confesso que por vezes me preocupei demais com esse último detalhe devido a minha aversão a agulhas, mas temo que para produzir o efeito desejado a agulha precisa penetrar fundo em nossa pele. Somente abaixo da superfície alguns segredos podem ser revelados. Algumas coisas são valiosas demais para ficarem expostas; é necessário protegê-las de alguma forma, seja com a nossa própria carne ou com quebra-cabeças inventados por Deus. 


Referências:
  1. Ceticismo.net, "Hitler era ateu?", 20 de abril de 2010. Disponível em: ceticismo.net.
  2. Revista VEJA, "Como a fé resiste à descrença", 26 de dezembro de 2007. Disponível em: veja.abril.com.br.
  3. Mário Ferreira dos Santos, Dicionário de Filosofia e Ciências Culturais, vol. 1, São Paulo: Editora Matese, 1963, págs. 255-8.
  4. G. K. Chesterton, Ortodoxia, trad. de Almiro Pisetta, São Paulo: Mundo Cristão, 2008, pág. 243.

18 de novembro de 2012

Alegria na floresta

Em todo romance genuíno há três personagens vivos e comoventes. Para o bem do argumento eles podem ser chamados São Jorge e o Dragão e a Princesa. Em todo romance deve haver os elementos gêmeos de amar e combater. Em todo romance deve haver esses três personagens: deve haver a Princesa, que é coisa a ser amada; deve haver o Dragão, que é a coisa a ser combatida; e deve haver São Jorge, que é a coisa que ao mesmo tempo ama e combate. Tem havido muitos sintomas de cinismo e decadência na nossa civilização moderna. Mas de todos os sinais da debilidade moderna, da falta de compreensão da moral como ela realmente deve ser, não houve nenhum tão bobo e tão perigoso quanto esse: que os filósofos de hoje começaram a separar o amor da luta e a os colocarem em campos opostos. [...] As duas coisas implicam uma à outra; elas implicaram uma à outra no antigo romance e na antiga religião, que eram as duas coisas permanentes da humanidade. Você não pode amar uma coisa sem querer lutar por ela. Você não pode lutar sem ter algo pelo qual se luta [1].

G. K. Chesterton.

Mais e mais tenho a impressão de que as pessoas falam de felicidade como algo que deve ser conquistado, e essa impressão sempre me deixa inquieto. Algumas vezes penso que as pessoas não sabem o que é felicidade; outras vezes sinto como se fosse eu quem não a conhecesse. Mas a razão pela qual fico inquieto não é a possibilidade de eu estar errado, mas as implicações que seguem o erro. Se a felicidade é uma conquista, então eu provavelmente não a conhecerei tão logo, pois eu não tenho me esforçado para conquistá-la. De fato, eu não sei sequer onde está o dragão que devo derrotar para que possa finalmente salvar minha princesa. 

Acredito em dragões e em princesas, e acredito principalmente que os dragões devem ser derrotados e que as princesas devem ser salvas. Minha objeção não está em nada disso. Simplesmente não acredito que a felicidade seja um prêmio ou recompensa pelo esforço do cavaleiro. Em outras palavras, acredito que os contos de fada terminam com a frase “felizes para sempre” porque seus personagens já eram felizes antes de todas as dificuldades, e continuaram felizes após as ter superado. As dificuldades da vida – as bruxas e os dragões – não são motivos de tristeza, e após o triunfo sobre elas a felicidade tem sempre um ar de novidade, como uma surpresa que apesar de conhecida torna ainda a surpreender e revigora os ânimos da vida cotidiana. 

Os cavaleiros são sempre corajosos e estão dispostos ao sacrifício, mas eu não vejo como essa coragem e essa disposição poderiam nascer da tristeza. A fonte dessas virtudes, obviamente, é o amor, e onde há amor há esperança, pois o amor vem sempre acompanhado de um ideal, e nenhum ideal pode ser alcançado sem esperança ou fé. O homem não pode fazer cálculos matemáticos e observações em laboratório para descobrir o dia em que irá se casar, nem com quem. Primeiro ele deve encontrar uma donzela e esperar que ela seja a donzela feita para ele, mas o fato é que ele nunca poderá ter certeza. Depois ele deve se ajoelhar diante dela e esperar ouvir a resposta desejada para a pergunta que ele esboçava desde sua infância, mas ele não terá certeza de que irá ouvi-la. E após atravessar toda uma floresta de monstros e armadilhas ele estará aguardando o momento em que poderá levantar o véu de sua amada, olhar em seus olhos com a pureza de uma criança e selar com um beijo a vitória sobre o dragão. Mas o que é necessário ser notado é que o mesmo caminho feito até a Igreja será novamente percorrido na volta para a casa: é necessário notar que nós estamos sempre atravessando a floresta. 

Os adultos costumam dizer que a vida não é fácil, mas eu dificilmente vejo adultos dizendo que a vida não deve ser vivida, ou que a sua dificuldade rouba-lhe a beleza. Uma coisa não é ruim porque é difícil, mesmo que pareça impossível. De fato, é mais provável que uma coisa seja ruim por ser fácil demais. E eu temo que em pouco tempo não possa mais dizer que os adultos não se entregam diante das dificuldades da vida, exatamente porque as novas gerações querem conquistar a felicidade: querem conquistá-la como se ela fosse um pote mágico de ouro que quando recebido acabará com todos os problemas. Pois é essa a noção de felicidade moderna: viver sem problemas. E porque é impossível não ter problemas algumas pessoas já espalham por aí que a felicidade não existe. 

Mas é claro que a felicidade existe: ela existe no coração confiante e esperançoso, disposto ao sacrifício, cheio de amor e coragem do cavaleiro. Ela pode ser muito bem definida como a soma desses elementos; como uma mistura das virtudes humanas e das virtudes oferecidas ao homem por Deus. E o produto dessa felicidade é a alegria, que não por acaso significa disposição. Já vi muita gente dizendo ser feliz, e ao ouvir algumas delas tive a impressão de que elas se sentiam obrigadas a dizer que eram felizes, como se autodeclarar-se infeliz fosse uma admissão de fracasso. E para elas realmente é, pois elas pensam na felicidade como uma conquista, e parece mesmo haver uma competição para conquistá-la o mais rápido possível e mostrá-la a quem ainda não chegou lá. E para isso posso apenas dizer que as coisas são muito mais fáceis para pessoas como eu, que pensam que a felicidade é um presente. Não é uma recompensa, pois recompensa significa reequilibrar e implica mérito. Mas a felicidade não surge de méritos e o homem que esperar ser feliz porque merece certamente acabará desesperado; o que é o caso do nosso tempo. 

Digo confiante que o momento em que um homem descobre que não pode conquistar a felicidade pelas suas próprias mãos é o momento em que ele realmente está pronto para começar a ser feliz: é o momento em que ele começará a sorrir para estranhos e olhar para o céu com gratidão, pois é nesse momento que ele encontrou a alegria, e só a encontrou porque alguém lhe mostrou onde ela estava. O cavaleiro deve ter encontrado a alegria antes de atravessar a floresta e antes de combater o dragão, pois assim poderá salvar a princesa e ainda agradecê-la por lhe ter permitido contemplar tamanha beleza após a vitória sobre algo tremendamente horrível. E o verdadeiro cavaleiro não tentará levar a princesa do castelo contra a vontade dela, mesmo que a tenha livrado de grandes perigos. Ele não irá cobrá-la por ter prestado um favor, e talvez ainda se ajoelhe diante dela por sentir-se honrado em ter lutado contra aquele monstro pela vida de alguém que torna o mundo mais belo.

Seria ainda razoável dizer que se o cavaleiro não tivesse encontrado a alegria antes de atravessar a floresta ele nunca tentaria atravessá-la. Um homem triste e deprimido nunca quer sair de casa. A aventura requer uma disposição para aventurar-se. Combater o dragão requer uma filosofia que permita ao cavaleiro encarar o dragão como outra criatura qualquer; uma criatura que é, como ele mesmo, mais frágil que o seu Criador. Refiro-me a uma filosofia em que é Deus quem cria o dragão, mas apenas para que o cavaleiro possa valorizar a princesa; uma filosofia em que é o cavaleiro quem derruba o dragão, mas apenas porque Deus é seu aliado.

E insisto que quando um homem desiste da ideia de que merece as coisas, mesmo as coisas pequenas serão apreciadas como dádivas divinas, e mesmo as grandes dificuldades não serão vistas como obstáculos ao amor divino. É verdadeiramente fácil admitir que devemos lutar por aquilo que amamos, e que o amor é provado nos sacrifícios da batalha. É tão fácil quanto admitir que a vida é difícil, ou nesse caso, um campo de batalha. Mas é um campo que poderia não estar ali, assim como o cavaleiro poderia não estar ali, e também a princesa poderia não estar ali. Me parece, no entanto, uma coisa boa que todos eles estejam ali, assim como pareceu uma coisa boa para Deus que o homem e a mulher estivessem no Jardim, e por isso sou grato. Eu entendo que as pessoas não compreendam por que Deus permitiria o dragão ou a serpente, e eu certamente não poderia explicar a real intenção. Mas para mim está muito claro que Deus quis deixar o homem livre para aventurar-se, livre para amar e combater: e para isso o dragão é realmente uma necessidade.

Gosto de imaginar que no momento em que o primeiro cavaleiro ouviu sobre o primeiro dragão ele pode ter sentido medo, mas então Deus cochichou no seu ouvido que era mais poderoso que o dragão, e lhe entregou uma espada para lembrá-lo de qual lado Ele estava: e essa espada era a alegria. Com ela o cavaleiro derrotou o dragão, salvou a princesa e voltou à Igreja, onde junto a outros cavaleiros agradecia por um presente singular, o próprio presente que tornava a alegria possível e sincera: o dom da vida. Pensei que uma boa frase para resumir a filosofia que tentei brevemente expor aqui seria “a vida é bela”, e de repente me lembrei do sacrifício de Guido Orefice, o cavaleiro que lutou pela coisa amada com uma alegria de outro mundo, e que de fato deve refletir a alegria de outro mundo, pois nem a própria morte é forte o suficiente para assombrá-la.


Referências:
  1. G. K. Chesterton, Appreciations and Criticisms of the Works of Charles Dickens. Londres: J. M. DENT & SONS, Ltd., 1911, págs. 27-8.

19 de outubro de 2012

A crença cotidiana #2

Segunda parte do capítulo do projeto que foi abandonado - e-book. Nessa parte o leitor poderá notar, além do conteúdo exclusivo, porções de uma postagem antiga*, publicada originalmente em setembro de 2011.
A impressão que eu tenho ao dialogar com algumas pessoas sinceras é que, mesmo se esforçando para agir com justiça, elas acabam ignorando o fato de que a história do cristianismo não pode ser resumida a uma religião que fez vítimas nesse ou naquele evento, mas poderia facilmente ser resumida a uma religião que foi a vítima na maior parte dos eventos que constroem a sua história. Se olharmos cuidadosamente para cada evento e para as suas testemunhas, é exatamente isso que acabaremos por verificar [1]. Creio que não seja possível continuar sem antes falar dessas testemunhas e sobre uma possível objeção aos depoimentos que elas nos trazem. Acontece que algumas pessoas parecem acreditar que, quando se fala de eventos passados há quase mil anos, há uma carência de documentos que relatem o que via os olhos do próprio povo que protagonizou esses eventos – foi isso que senti ao ouvir um dos discursos do sr. Yuri Grecco contra a Igreja [2]. Mas é exatamente o contrário: a abundância é tão expressiva que chega a ser engraçado ver pessoas falando que as histórias inconvenientes de certo período foram queimadas em benefício de um propósito sombrio. E o que é realmente engraçado é a consequência de uma história que sofre com a transformação do papel em cinzas. Se realmente houvesse essa lacuna histórica, como o historiador moderno seria capaz de afirmar qualquer coisa sobre o pensamento e prática de uma época que não consta em nenhum registro? Se realmente não há registros, então não é possível falar em historiadores. Poderemos apenas falar em poetas. Nesse caso, o que se conta sobre a Idade Média terá tanto valor quanto o que se conta nas histórias em quadrinhos. Seria até mesmo injusto tratar as histórias de Andrew Dickson White como tratamos as histórias de Stan Lee, pois as histórias de Stan Lee são muito mais verdadeiras. 

Penso que esse exemplo pode explicar toda essa dúvida que existe ao se falar do passado um tanto remoto, que é também a possível objeção às testemunhas desse passado. Para algumas pessoas, não é que há apenas certa carência de documentos: o verdadeiro problema é a origem dos documentos. Não no sentido de que tenham sido fabricados posteriormente, mas no sentido de que são, muitas vezes, documentos cristãos. O cético não quer o depoimento de um monge, pois supõe que o monge irá manipular os fatos para representar positivamente a instituição que ele defende. O cético pensa que o monge antigo é como o jornalista moderno tentando garantir o seu emprego agrandado um público-alvo. Mas se consultarmos o que diz o monge, veremos que essa preocupação simplesmente não existe. É por esse motivo que pode até parecer chocante o fato de Lutero ter sido um monge católico. O que se vê no relato dessas testemunhas, bem como se vê no caso de Lutero, é que não há uma preocupação em retratar bem ou mal a Igreja: há apenas a preocupação em relatar o que se vê, e mesmo que a visão seja limitada, ela é útil por ser a expressão do que aquela pessoa realmente viu ou sentiu, em vez de ser uma suposição sobre o que pode ou não ter acontecido. Se juntarmos todos os olhares e todos os manuscritos poderemos realmente construir uma imagem próxima do fato, e é exatamente assim que a verdadeira história pode ser preservada da tentação do preconceito e da especulação exagerada. 

No entanto, os livros limitam-se ao preconceito e até estimam o exagero de especulação [3], e as testemunhas permanecem desconhecidas por boa parte das pessoas que mais insistentemente usam a história para condenar a Igreja. E ainda é necessário dizer algo mais sobre a recusa instantânea por parte de algumas pessoas quando os documentos partem desse ou daquele autor, como se fosse absurdo que um autor católico pudesse falar da Igreja Católica por correr o risco de deixar suas convicções pessoais atrapalharem sua imparcialidade. Essas pessoas parecem supor que o ateu tem até mais direito de falar da Igreja Católica por não ter com ela nenhum laço que comprometa as suas conclusões. Mas mera falta de ligação não garante imparcialidade, e se é verdade que o cristão pode tentar beneficiar o cristianismo movido por seu amor religioso, é igualmente verdadeiro que o ateu pode tentar depreciar o cristianismo movido por seu ódio ou desprezo antirreligiosos.

É possível ir mais fundo nessa questão, a fim de que entendamos o verdadeiro motivo de ser uma grande tolice recusar um depoimento por ele vir de alguém que possa não ser imparcial. No caso do que se diz sobre o catolicismo, a verdadeira questão é: não estariam os autores católicos, ao professarem qualquer argumento em defesa da Igreja, fazendo-o mais por buscarem retratá-la bem, que por qualquer compromisso com os fatos? Isso certamente dificultaria qualquer conclusão acerca de determinados episódios e, por isso, há duas considerações a se fazer, antes de qualquer investigação: a primeira, é que um autor não deve ser descartado por suas convicções pessoais. Imaginemos que um alemão e um francês discutirão o seguinte tópico: "Qual país é melhor: Alemanha ou França?". Seria razoável suspeitar que algum deles acabasse hora ou outra fornecendo uma defesa mais puramente patriótica de seu país, que uma baseada estritamente nos fatos sobre os dois países. Mas isso não nos daria o direito de dizer: "Que venha um inglês e decida a questão". A grande tristeza do alemão e do francês seria descobrir que, na verdade, o inglês não sabia nada sobre a Alemanha e nem sobre a França, e isso serviria, no máximo, como argumento contra a Inglaterra. Mas é verdade que o inglês poderia saber mais sobre a Alemanha e sobre a França do que sabiam o alemão e o francês sobre elas: o grande impasse seria saber, então, se um inglês seria capaz de decidir a favor da França em alguma disputa. O que quero dizer é que, inevitavelmente, corremos o risco de uma pessoa agir mais de forma emocional e deixar a objetividade de lado. Mas esse risco é humano e se manifestará em qualquer situação, e bem como o inglês poderia optar pela Alemanha movido por algum ódio cultural à França, o francês também poderia fazer a mesma coisa e pelo mesmo motivo em outro debate. 

Assim, se certo sacerdote polonês diz algo em defesa do catolicismo, deve-se buscar entender se a realidade sustenta aquilo que ele afirma, em vez de se usar aquilo em que ele acredita para descartar a sua defesa. É até muito mais sensato confiar em quem defende alguma coisa porque acredita naquela coisa, do que confiar em quem acusa alguma coisa pelo fato de nela não acreditar. Isso vale para todos, e é por isso que, se alguém quer entender bem a algo, deve buscar entendê-lo como entendem aqueles que acreditam nesse algo. Não se aprende sobre a Igreja Católica dando ouvidos a Andrew Dickson White, pois ele ensinaria apenas algo que nada tem a ver com a Igreja Católica, e me parece razoável que o ateísta suspeitará que não se aprende sobre o ateísmo dando ouvidos a algum padre de sua cidade – ou ao menos dirá que não se entende plenamente o ateísmo dessa forma. Se houvesse algum curioso fazendo-lhe perguntas sobre o ateísmo, suponho que ele preferiria recomendar Bertrand Russell. Mas, para que não se tenha a impressão errada do que quero dizer, esclareço que não estou dizendo que não se deve ouvir o que Dickson White tem a dizer sobre a Igreja, ou que um padre não pode dizer algo sobre o ateísmo: o que estou dizendo é que aprender sobre alguma coisa requer dar ouvidos tanto a quem a ama e quer preservá-la quanto a quem a odeia e quer destrui-la, pois somente assim o curioso poderá confrontar os dois extremos e concluir se quem ama ou odeia aquela coisa o faz por enxergar nela um fato amável ou odiável, ou se ama ou odeia aquela coisa apesar dos fatos amáveis ou odiáveis sobre ela. O que mais tenho notado sobre algumas pessoas que parecem curiosas é que elas quase nunca são curiosas o bastante, e isso explica praticamente todos os equívocos que elas cometem ao lidar com alguns desses problemas. Pois é verdade que há o cristão que crê no cristianismo por pura covardia de questionar-se e descobrir-se sozinho em um mundo carente de amor divino; mas também é verdade que há aquele sujeito que não crê no cristianismo por pura covardia de dar a ele uma chance e descobrir-se incapaz de negá-lo honestamente. 

A segunda consideração é a seguinte: assim como o alemão desconfia do julgamento que o francês faz sobre a França, também o ateísta pode desconfiar do julgamento que o católico faz sobre a Igreja Católica; mas é necessário imaginar a cara do alemão caso descobrisse que o inglês escolhera a França: ele certamente desejaria saber o que há na França de tão especial. Digo, pois, que no caso da Igreja Católica, para a triste alegria do alemão, não é só com o depoimento do inglês ou do francês que ele pode contar, mas com o irlandês e até mesmo com o chinês. O ateísta pode e deve desconfiar do que os católicos têm a dizer sobre a Igreja Católica, mas se ouvir o que os judeus têm a dizer sobre ela, ou os protestantes, ou os próprios ateus, ele terá dado seu primeiro passo rumo à construção de um consenso – que a princípio pode ser histórico ou anti-histórico. É assim que se descobre se há um fato amável sobre algo, ou um amor que ignora os fatos; e essa descoberta precisa estar em harmonia com a realidade. Bem como Sócrates Escolástico podia falar sobre a Igreja de sua época por ter vivido aquela época [4], também os judeus podem falar sobre a Igreja da Segunda Guerra, pois eles estavam lá. Nem todos os judeus estavam lá, mas alguns estavam, e é a eles que podemos emprestar nossos ouvidos [5][6][7][8]. 

Quando Richard Dawkins sente que a temperatura ambiente é capaz de ferver uma boa sopa de legumes, fala da Igreja e do nazismo como se Hitler e Pio XII fossem praticamente compadres [9]. Richard Dawkins é ainda mais problemático que Richard Carrier. Ao menos o segundo prestou-se a investigar alguma coisa. Eu não sou capaz de dizer qual dos dois demonstra maior apresso por polêmicas, mas sou capaz de dizer exatamente por que são polêmicas vazias. Dawkins repetiu diversas vezes que Hitler era católico por nunca ter renunciado ao batismo e por nunca ter sido excomungado pela Igreja. Mas ele parece ter a mente bastante limitada para sequer entender o que é uma excomunhão. Ele certamente nunca consultou o Direito Canônico. Parece que nenhum de seus leitores devotos o fez, e é por isso que eles se sentem até empolgados ao aplaudir algumas de suas declarações em alguma praça inglesa, em protesto à visita do Papa. De certo modo, Richard Carrier tem mais cautela e é até mais interessante: mas ele ainda precisa de algo sem o qual todas as suas ideias não podem resistir: novamente, trata-se do bom senso, pois ele certamente não percebe que mesmo suas ideias mais banais são completos absurdos. Lembro-me de seu artigo em que trazia ao leitor o resultado de suas investigações acerca do controverso Hitler’s Table Talk [10]. Lá ele denunciava as alterações de algumas traduções da obra e explicava o que o livro realmente dizia. Não se vê ali um Hitler anticristão: se vê, de fato, um Hitler lunático. Para Carrier, mesmo após toda a loucura, ainda se vê um Hitler católico, e o que fica evidente é que, assim como Richard Dawkins, ele sequer entende o catolicismo. Segundo os resultados de sua própria investigação, Hitler acreditava em um Cristo Ariano, desprezava o Apóstolo Paulo e repudiava como loucura o conceito da transubstanciação. Mas ele não vê, nisso tudo, algo que levante entre Hitler e o catolicismo a mínima contradição. 

Esse é exatamente o tipo de pessoa que condena a luta católica contra os hereges sem ao menos saber o que é uma heresia. Carrier está, em relação à Dawkins, mais familiarizado com a história, já que é um historiador: mas estar mais familiarizado com a história do que está Richard Dawkins não é necessariamente uma vantagem.  No fundo, nenhum dos dois pode dizer o que realmente aconteceu, no sentido de que nenhum dos dois é confiável: a ignorância é diferente, mas causa praticamente a mesma cegueira. Especialmente a cegueira de Carrier ficou muito clara, ao menos para mim, quando recomendou o filme Agora, de Alejandro Amenábar, em uma de suas palestras contra o cristianismo [11], em que disse que o filme era historicamente acurado e que quase o fez chorar. Não duvido que Agora seja capaz de fazer uma pessoa chorar, assim como estou certo de que é capaz de fazer uma pessoa gargalhar. O mesmo pode ser dito da avaliação de Carrier sobre o filme. De qualquer forma, deixarei outros comentários para outra oportunidade. 

Se as pessoas buscassem consenso entre autores, em vez de consultar apenas esses autores polemistas, que ou são cegos ou são obscuros, então teríamos a condição necessária ao entendimento da história: falo, novamente, de dar ouvidos aos olhos, sem que se esqueça, porém, dos lábios. As imagens podem registrar um momento marcante, mas somente as testemunhas e os relatos podem dar sentido ao momento e explicar porque ele foi marcante. Uma pessoa que é justa sobre a Igreja pode garantir muitas coisas sobre sua história: pode garantir que houve resistência e que houve traição; que houve fraqueza e que houve coragem; que houve fé e que houve desespero - e não há nada de surpreendente nisso tudo. Ninguém pode, porém, dizer que a Igreja, que por vezes parece um navio afundando, tenha realmente afundado ou perdido a esperança de encontrar terra firme. Não só ela encontrou terra firme, como também não hesitou em trazer naquele navio duvidoso uma tripulação que em nenhum outro lugar encontrou ajuda para superar as ondas cruéis de um mar impiedoso. Aquela tripulação não fez outra coisa senão agradecer por aquela imensa generosidade. Mas quem já estava na ilha, em segurança, quem não acompanhou o drama da tempestade olha para o navio e imagina que ele provavelmente não fez nada. À medida que a tripulação desaparece, também desaparece a gratidão. Enquanto duas ou três pessoas tentam falar sobre as glórias e importância do navio, os indiferentes veem nele apenas algo sem beleza e que ofusca a beleza do que o cerca. Não importa o que digam, será sempre um velho navio que por pouco não naufragou e que já não tem utilidade.

Esse é exatamente o julgamento que os modernos fazem do navio. Olham para o casco destruído, mas não imaginam o capitão ou a trajetória, nem distinguem os leais e os traidores. Não consultam os tripulantes, mas consultam os jornalistas, que apareceram muito depois de a âncora tocar o chão e congelar o tempo, como moscas que só vão até o cadáver quando o odor do corpo já é muito forte. Trata-se de olhar para a foto sem perceber que uma imagem não conta uma história. Trata-se de olhar para a história como se ela não fosse uma aventura no tempo, mas uns poucos retratos congelados. Minha avó sabe que seus retratos não revelam os segredos da infância, a alegria do casamento ou a felicidade da família. Mas os que são chamados céticos parecem não saber que o retrato diz muito pouco, principalmente para quem não sabe o que houve antes ou depois daquela fração de segundo.


Notas:
*Challenge Accepted, 3 de setembro de 2011: caosdinamico.com.

Referências:
  1. Eu apenas imagino a reação de alguns ao ler tal afirmação, mas o cristianismo passou os primeiros séculos sendo perseguido pelo Império Romano, e mesmo após ter crescido foi vitimado em diversos episódios de diferentes períodos e lugares - França, Espanha, México, por exemplo. Mas o mais notável é o fato de ainda hoje pessoas serem perseguidas por causa da fé cristã, como se pode perceber na China comunista ou em vários países teocráticos islâmicos.
  2. Eu, Ateu, 29 de agosto de 2011: A Igreja Católica era boazinha.
  3. Por "livros" não me refiro aos livros de historiadores que discutem a fundo cada pequeno evento histórico, levando em contas as fontes originais e o que outros historiadores afirmam sobre esses eventos; me refiro aos livros populares e ao desserviço que prestam à verdadeira História. Livros didáticos parecem tender à abordagem popular e ignorar a abordagem acadêmica, o que é no mínimo irônico.
  4. Sócrates de Constantinopla, historiador cristão, autor de Historia ecclesiastica, obra em que relata, por exemplo, o caso de Hipátia de Alexandria - filósofa assassinada por um grupo de cristãos, no século V.
  5. Há livros com depoimentos de judeus sobre o Papa Pio XII e a atitude da Igreja em relação ao drama sofrido pelos judeus sob o nazismo: Defamation of Pius XII, de Ralph McInerny; The Myth of Hitler's Pope, de David G. Dalin, e Did Pope Pius XII Help the Jews, de Margherita Marchione, por exemplo. O primeiro e segundo exemplo são respostas diretas a Hitler's Pope, de John Cornwell.
  6. A Pave the Way Foundation tem feito grandes esforços em esclarecer a figura de Pio XII e seu comportamento em relação aos judeus e nazistas. Eles compilaram pilhas de documentos, promoveram simpósios e publicaram um livro, Pope Pius XII and World War II - The Documented Truth, do judeu Gary Krupp, disponível em amazon.com. Também produziram um vídeo narrado sobre o assunto, que exibe vários documentos, como cartas escritas à mão: Pope Pius documents.
  7. No Google News Archives há uma publicação do The Milwaukee Sentinel, 22 de março de 1937 - antes mesmo da Segunda Guerra Mundial -, em que se lê: "Nazistas denunciados pelo Pio como anticristãos". A página completa pode ser acessada aqui: news.google.com.
  8. Mesmo O Globo atentou recentemente para o problema, em um artigo intitulado "A misteriosa relação do Vaticano com Hitler", 17 de março de 2012, de Graça Magalhães. Nele lemos: "Novos estudos revelam que Igreja teria sido sempre contrária ao nazismo, mesmo quando silenciou". A página completa pode ser acessada aqui: slideshare.net.
  9. "Protest the Pope" Rally, 18 de setembro de 2010: Richard Dawkins' speech at Protest the Pope march.
  10. Richard Carrier, em Freedom From Religion Foundation, On the Trail of Bogus Quotes, novembro de 2002. Disponível em ffrf.org.
  11. Richard Carrier, Early Christian Hostility to Scientific Values. A palestra está disponível no Youtube, dividida em oito partes: Richard Carrier on Early Christian Hostility to Science.

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