Christopher Hitchens, renomado jornalista britânico, foi uma das vozes mais marcantes para o pensamento neo-ateísta, e, apesar de sua morte, suas críticas às religiões não serão esquecidas - ao menos não tão cedo. Dois meses após sua morte, descobri que seu último artigo (http://www.theatlantic.com/magazine/archive/2012/03/the-reactionary/8889/?single_page=true) fora dedicado a criticar um autor muito popular em certos círculos e completamente anônimo em outros: G. K. Chesterton, o "apóstolo do senso comum", que entre centenas de livros e milhares de artigos publicados, exerceu forte influência sobre homens como C. S. Lewis, autor de As Crônicas de Nárnia.
Não é minha intenção, nesse momento, questionar os erros e absurdos que podem ser encontrados no artigo de Hitchens: quero apenas resumir o que o artigo revela não sobre Chesterton, mas sim sobre o próprio Hitchens. Me parece óbvio que qualquer crítica que se faz ao pensamento de alguma pessoa deva lidar, rigorosamente, com as obras que melhor expressam esse pensamento. Um homem que deseja criticar Charles Darwin deve lidar, inevitavelmente, com sua visão sobre a evolução das espécies e o impacto disso em seu pensamento, em vez de se preocupar com questões secundárias de sua cosmovisão, como o apreço que possivelmente sentia pela beleza das borboletas. Por isso, parece uma grande piada o fato de Hitchens escrever um artigo que sequer leva em consideração obras como Hereges, Ortodoxia e O Homem Eterno, três de seus livros mais populares e influentes.
Dito isso, é simplesmente desnecessário prolongar qualquer discussão ou tentativa de defender Hitchens, que descreve Chesterton como "fútil" e "sinistro". É impossível saber se trata-se de uma crítica de alguém que leu Chesterton e se aproveita da ignorância de quem não o tenha feito, ou se trata-se do próprio ignorante. De qualquer forma, esse é o legado do último artigo de Hitchens: mostrar ao mundo que, antes de sua morte, ele cometeu suicídio; suicidou-se intelectualmente. Acredito que esse seja um dos casos que Chesterton verdadeiramente descreveria como um paradoxo, mas prefiro encerrar com algo escrito por Lewis em sua autobiografia, Surprised by Joy, que até parece ter sido feito sob medida para a crítica de Hitchens.
"Para os críticos que pensam em Chesterton como fútil ou "paradoxal" eu tenho dificuldades em simplesmente sentir pena; simpatia está fora de questão"
Como Hitchens gostava de dizer em seus debates, "eu encerro meu caso".